Com investimento de R$ 2,2 milhões, a iniciativa desenvolvida em parceria com a SBMicro e as três universidades prevê dez oficinas em sala limpa ao longo de dois anos, além de subsidiar o acesso de cerca de 50 universidades a ferramentas de projeto de chips.
Atibaia, 6 de novembro de 2026 – A Zilia Technologies, empresa líder de semicondutores no Brasil, vai investir cerca de R$ 2,2 milhões no FabChip Brasil, programa de formação de profissionais para a indústria de semicondutores. A iniciativa é desenvolvida em parceria com a Sociedade Brasileira de Microeletrônica (SBMicro) e três universidades com estrutura de microfabricação: a Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ao longo de dois anos, a partir de fevereiro de 2027, estão previstas dez oficinas práticas de fabricação de circuitos integrados, com 126 vagas.
As oficinas serão realizadas no Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI) da Escola Politécnica da USP, no Centro de Componentes Semicondutores (CCS) da Unicamp e em laboratórios de microfabricação da UFRGS. Além das oficinas, o programa garante a continuidade do acesso de 50 universidades brasileiras a softwares de projeto de chips e apoia a fabricação de protótipos de circuitos no exterior.
Nas edições anteriores, as oficinas eram oferecidas gratuitamente pela USP, pela Unicamp e pela SBMicro, mas os inscritos arcavam com os custos da viagem. Com o aporte da Zilia, os selecionados passam a receber, pela primeira vez, apoio financeiro para deslocamento e hospedagem. Estruturado como um Programa de Cooperação Tecnológica, o projeto tem a Zilia única empresa patrocinadora, conta com o respaldo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e se enquadra no Programa de Apoio ao Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores e Displays (PADIS).
Da lâmina de silício ao circuito
Cada oficina dura uma semana, com 40 horas de atividades, e percorre as etapas do chamado front-end da fabricação de semicondutores, em que o dispositivo é construído diretamente sobre a lâmina de silício (wafer). Os participantes trabalham nas salas limpas das universidades, ambientes controlados usados na fabricação de semicondutores, e executam processos como oxidação, fotolitografia, corrosão, dopagem e deposição de filmes finos.
Etapa por etapa, eles constroem transistores do tipo MOS, definindo as regiões de porta (gate), fonte (source) e dreno (drain) e as interconexões metálicas do circuito. Ao final da semana, saem da sala limpa com um componente fabricado por eles, que passa por caracterização elétrica e encapsulamento. A formação inclui ainda o projeto de um circuito CMOS, tecnologia usada na maior parte dos chips atuais.
Cada universidade trabalha com sua própria rota tecnológica: na USP, as oficinas utilizam a tecnologia SOI (silício sobre isolante); na Unicamp, o processo MOS convencional. Das dez oficinas, quatro serão realizadas na USP, quatro na Unicamp e duas na UFRGS.
A experiência prática em sala limpa ainda é rara no país, porque exige infraestrutura especializada, insumos e equipe técnica. Por isso, as atividades são concentradas em uma semana, formato que facilita a participação de quem vem de outras regiões. Na USP, as edições anteriores tinham cerca de cinco candidatos por vaga, mas o custo da viagem limitava o acesso de muitos interessados.
A bolsa da Zilia apoia o deslocamento e hospedagem na cidade da oficina. O investimento inclui também a remuneração dos instrutores e o material de consumo dos laboratórios.
Universidade e indústria

A iniciativa se apoia em uma trajetória acadêmica que começou em 1968, quando a Escola Politécnica da USP criou a primeira sala limpa do país, no Laboratório de Microeletrônica (LME). Em 1971, o professor João Antonio Zuffo apresentou ali a primeira prova de conceito de um circuito integrado brasileiro. Anos depois, o professor Carlos Mamana levou essa experiência à Unicamp, onde estruturou o laboratório de fabricação que deu origem ao CCS. A UFRGS, por sua vez, consolidou-se como um dos principais polos de formação de projetistas de circuitos integrados do país.
A parceria aproxima duas partes da cadeia de semicondutores: a pesquisa universitária em processos, dispositivos e projeto de circuitos e a experiência industrial da Zilia. A empresa atua nas etapas finais da fabricação, o chamado back-end, com encapsulamento avançado e testes de circuitos integrados em ambiente de sala limpa. É uma operação que depende de profissionais com conhecimento de processos e dispositivos, perfil que o programa busca ampliar.
“A Zilia está perto de completar 30 anos de atuação no Brasil. Essa história só é possível porque as universidades brasileiras formam profissionais nessa área há mais de meio século, em laboratórios que são referência”, afirma Rogério Nunes, presidente e CEO da Zilia Technologies.
O executivo destaca o valor da experiência prática para quem pretende atuar no setor. “Quem entra numa sala limpa e acompanha cada etapa da fabricação de um chip chega à empresa com outra bagagem. Estar perto da academia é a forma mais direta de contribuir para formar esses profissionais.”
Presidente da SBMicro, o professor João Antonio Martino, da Escola Politécnica da USP, atua em microeletrônica desde 1982. Ele chama atenção para o efeito da parceria sobre a perspectiva de carreira dos estudantes. “É muito importante mostrar ao aluno que o que ele estuda tem aplicação e que existe possibilidade de trabalhar no Brasil, seja em projeto, seja em fabricação, encapsulamento ou teste. É uma área que exige recurso humano especializado.”
Martino vê na parceria uma forma de dar estabilidade à formação na área. “A pior coisa que tem é a descontinuidade”, afirma. “Até agora, os recursos vinham sempre de agências públicas, como FAPESP, CNPq e Finep. Ter o apoio de uma empresa como a Zilia para a formação de recursos humanos é fundamental para ampliar o acesso a essas técnicas, que são caras, e fortalecer ainda mais a formação de pesquisadores na área.”
Ferramentas de projeto e protótipos

O aporte da Zilia também garante a continuidade do acordo que a SBMicro mantém com a Cadence e a Synopsys, duas das principais fornecedoras mundiais de ferramentas de automação de projeto eletrônico (EDA, na sigla em inglês). Até então mantido com apoio do CNPq, o acordo atende cerca de 50 universidades de todas as regiões do país, cada uma com até 50 acessos simultâneos aos softwares, o que equivale a cerca de 2.500 usuários ao mesmo tempo.
O programa apoia ainda os editais anuais de tape-out da SBMicro. Nessa etapa, um circuito projetado em computador é enviado para fabricação em uma foundry no exterior. Grupos de pesquisa de universidades brasileiras submetem seus projetos, e os selecionados são fabricados em wafers, que podem reunir vários circuitos.
Cada grupo recebe cerca de 100 chips para testes e validação em laboratório. A primeira edição levou dez projetos à fabricação; a segunda, em 2026, reúne oito.
Próximos passos
O programa foi apresentado em 3 de novembro, durante visita de professores da USP à unidade da Zilia em Atibaia (SP). No dia seguinte, estudantes de graduação da disciplina de fabricação de circuitos integrados da Escola Politécnica conheceram a operação da empresa em escala industrial.
As inscrições para as oficinas serão abertas em um site dedicado ao programa, após o anúncio oficial. A primeira rodada acontece em fevereiro de 2027, na semana seguinte ao Carnaval, nas três universidades; a segunda está prevista para julho. A seleção buscará reunir participantes das cinco regiões do país.
A expectativa é que o programa amplie o número de profissionais preparados para atuar em processos de fabricação, gere novos circuitos validados e propriedade intelectual para as universidades e contribua para a soberania tecnológica do país em semicondutores.
Sobre a Zilia
Há quase 30 anos, a Zilia é líder de semicondutores no Brasil, com atuação em circuitos integrados de memória, módulos de memória e dispositivos de armazenamento SSD. Pioneira na produção nacional de componentes DRAM e Flash, a empresa opera salas limpas e linhas de montagem automatizadas em suas fábricas de Atibaia (SP) e Manaus (AM) e mantém, em parceria com o Instituto Eldorado, um laboratório de prototipagem e testes em Campinas (SP), além de estrutura própria para análise de falhas e ensaios de conformidade técnica. Seus produtos equipam smartphones, computadores, servidores, tablets e smart TVs de última geração, qualificados pelas maiores empresas de tecnologia do mundo.
Zilia: conduzindo a um futuro mais inteligente.